Quatro Foragidos e um Pistoleiro
segunda-feira, 21 de maio de 2012
sábado, 19 de maio de 2012
A Coreia do Norte como NUNCA antes filmada, literalmente
sexta-feira, 18 de maio de 2012
A Neuza Roquefort? "gosto"
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Notas sobre o pluralismo dos clássicos.

O pluralismo é hoje usualmente apresentado como uma perspectiva política que enuncia o facto de que a diversidade humana, no que diz respeito às opiniões políticas e culturais, deve ser respeitada pelos poderes políticos. Um político atentaria contra o pluralismo de uma sociedade se, porventura, procurasse de algum modo uniformizar a sua comunidade. As suas leis deveriam ser por isso suficientemente abrangentes para permitir a co-existência de opiniões, discursos, acções e indivíduos fundamentalmente diferentes, sem que pudessem a priori pronunciar-se sobre aqueles que são mais dignos ou correctos. Esta ideia asseguraria a liberdade de todos, pois, para haver pluralismo tem de haver liberdade ou vice-versa.
O pluralismo também existia nos clássicos, mas assumia uma forma fundamentalmente diferente. Para os clássicos o facto político plural par excellence é o de que o governante governa a demos, i.e., uma pluralidade de indivíduos com naturezas essencialmente diferentes. Enquanto tal, o político procuraria beneficiar cada um deles, mas, como não é possível beneficiar da mesma forma homens essencialmente diferentes, ele é forçado a legislar em vista do bem de cada um. Mas se for verdade que o governante governa pela lei, e a lei está para todos, se pudéssemos comparar o governo a uma escola, teríamos de dizer que o governo é a escola dos "bons e maus" "alunos", ao passo que, por exemplo, o filósofo apenas admitiria na sua escola os "bons" "alunos". Se entendermos que para os clássicos os "bons" "alunos" têm a alma mais bem ordenada que os "maus", compreendemos também que para eles o facto pluralista par excellence reflecte a fealdade daquilo que é disforme, ao passo que o facto da excelência ou dos "bons" "alunos" reflecte a beleza daquilo que é uno.
Um pluralista convicto argumentaria provavelmente que o preço da liberdade é a pluralidade e que a pluralidade é superior à singularidade, i.e., à ausência de liberdade. Mas os clássicos não punham a tónica na liberdade, mas sim na excelência.
terça-feira, 17 de abril de 2012
Cristina Kirchner ou é-possível-ser-mais-repugnante-que-sei-lá-...-Fátima Felgueiras
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Drive e a justiça

Os filmes onde o protagonista acaba por fazer justiça com as suas próprias mãos, por se transformar num agente da justiça, na personificação da justiça, num justiceiro, continuam a impressionar-me tanto hoje como no passado. Drive, à semelhança do Imperdoável, é um desses filmes. Neste tipo de filmes, a prática da justiça faz-se acompanhar de um terrível peso, mas ainda assim de um peso redentor. O justiceiro não pratica a justiça porque quer, mas porque para o homem decente não existe liberdade para escolher entre o bem e o mal, só uma necessidade. A justiça não existe assim sem um sentimento de perda ou até de tragédia: quando é necessário o justiceiro não escolhe o seu bem ou ganho.
NÂO LÊR O QUE ESTÁ ABAIXO CASO NÂO TENHA VISTO O FILME:
- Chave do Filme: piscar os olhos.
segunda-feira, 26 de março de 2012
A conspiração do bigode
Em Inglaterra
domingo, 25 de março de 2012
Estaline
"The foundation of Stalin's power in the Party was not fear: it was charm. Stalin possessed the dominant will among his magnates, but they also found his policies generally congenial. He was older than them all except President Kalinin, but the magnates used the informal 'you' with him. Voroshilov, Molotov and Sergo Ordzhonikidze, were allies, not protégés, all capable of independent action. There were close friendships that presented potential alliances against Stalin: Sergo and Kaganovich, the two toughest bosses, were best friends. Voroshilov, Mikoyan and Molotov frequently disagreed with Stalin. His dilemma was that he was the leader of a Party with no Fuhrerprinzip but the ruler of a country accustomed to Tsarist autocracy.
Stalin was not the dreary bureaucrat that Trotsky wanted him to be. It was certainly true that he was a gifted organizer. He 'never improvised' but 'took every decision, weighing it carefully'. He was capable of working extraordinarily loung hours - sixteen a day. But the new archives confirm that his real genius was something different - and surprising: 'he could charm people'. He was what is now known as a 'people person'. While incapable of true empathy on one hand, he was a master of friendships on the other. He constantly lost his temper, but when he set his mind to charming a man, he was irresistible.
Stalin's face was 'expressive and mobile', his feline movements 'supple and graceful', he buzzed with sensitive energy. Everyone who saw him 'was anxious to see him again' because 'he created a sense that there was now a bond that linked them forever'. (...) Visitors were impressed with his quiet modesty, the puffing on the pipe, the calmness."
Simon Sebag Montefiore in "Stalin: The Court of the Red Tsar", pp. 49-50.
sábado, 24 de março de 2012
Curso rápido de Nietzsche, por Nietzsche
Friedrich Nietzsche in "O Crepúsculo dos Ídolos", pp. 33-34.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Korean People's Army
Já é velhinho, mas vale sobretudo pela pronúncia do inglês (atentem a "war" e "supreme commander") e pelas acrobacias durante os treinos (obviamente deveras exageradas pela propaganda, apesar de muito pouco úteis hoje em dia).
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Ser sem graça
Mas o mal desta politização não é tanto o amaldiçoamento do "humor pago" nem a incapacidade para perceber que é bom rirmo-nos das coisas banais do dia-a-dia, daquilo que não tem importância nenhuma e também dos nossos defeitos pessoais ou, eventualmente, sociais. Sobre isto, pouco mais há a fazer do que desejar vidas menos sisudas. O problema é, sobretudo, a condenação psico-sociológica intrínseca à abordagem de matriz marxista: se RAP aceita ser pago para fazer humor e, ainda por cima, não faz humor de intervenção nem critica o estado de coisas, então é cúmplice do sistema. Os Monty Python são precipitadamente alinhados à esquerda pela sua matriz iconoclasta e por algumas farpas à fé cristã. É o que salta logo à vista. Para mim, pelo contrário, no non-sense dos Monthy Pyton vive também a serena aceitação do mundo tal como ele é, feito de homens imperfeitos e que o ideal marxista quer extinguir mas que é imprescindível ao humor. Ao humor e, já agora, com o contributo deste, ao progresso da consciência cristã sobre a nossa condição de pecadores e os caminhos do nosso desejável e interminável aperfeiçoamento neste mundo.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Queres Facechup Maria
Adoro ver a malta do facebook a encher-se de amigos como se estivessem a encher uma peúga de natal. Abriram uma conta há dois meses e já têm mais amigos que a Paula Bobóne - hey, a mulher só leva 100 anos de vida de socialite. Explicam os aficionados - "é tão fácil fazer amigos quanto clicar em 'add friend!'". Só a lista de "amigos" começados pela letra Y leva meia hora a percorrer. Recebem tantos convites para eventos que até o Passos Coelho se vê obrigado a reunir mais vezes com o líder de oposição e a publicar no FaceBook para mostrar que cá anda a fazer alguma coisa. "Passos Coelho just attended líder de oposição". Só posso mesmo ser um pobre desgraçado! Até o líder de oposição recebe mais atenção do que eu, que escandaleira. Não tenho lista Y e o único evento para o qual me convidam é para que me proteste contra o "aumento dos preços da Vodafone" - graças a Deus que eles protestam muito, não vá eu deixar de receber convites. Se calhar isto do Facebook é como cultivar nabos e grelos e, para não se passar fome, convém sempre ter muito nabo e grelo. No fundo, (mais nabo, menos nabo) ser um granda Facer é ser como um fazendeiro, andar de arado na mão e puxar o nabo ou o grelo quando ele já está bem refulgente. Urinar fora do penico, beliscar a jugosa alheia, pintar a tela com muitos pincéis? Isso não é pour moi, eu gosto é do Facebook! (tenho de ir, uma amiga dos tempos da creche acabou de me enviar um pedido de amizade!)
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Nietzsche e Heidegger (parte I)

Nietzsche e Heidegger serão muito provavelmente os filósofos mais importantes dos últimos dois séculos. Eles são importantes, não só pela profundidade e seriedade das suas respectivas obras, mas também porque ambos elaboraram a noção daquilo que hoje é frequentemente apelidado de "sentido histórico", o conceito que destruiu toda a wissenschaft (ciência) e que diagnosticou a historicidade de todo o pensamento humano. Nietzsche e Heidegger têm em comum parte da crítica que fazem aos filósofos clássicos, no geral, mas, no caso particular de Nietzsche, ele desenvolve uma poderosa crítica, muito específica, contra Sócrates.
Nietzsche está em crer que Sócrates é o ponto de viragem, o "vórtice", da história da humanidade - ideia que desenvolve em A Origem da Tragédia. Segundo Nietzsche, Sócrates corrompera a base da sociedade e, em especial, a sociedade dos kalonk'agathon da antiga Grécia. Sócrates terá conseguido tal proeza através da theoria, dialegtike e logos. Como os primeiros gregos, os gentis-homens, não tinham ao seu dispor um arcaboiço teórico com o qual pudessem fazer frente a Sócrates, as "paredes do seu mundo" acabariam por desabar. Em especial, como os gentis-homens eram homens de instinto e de boas maneiras, eles não sabiam como justificar o seu modo de vida perante o discurso demolidor de Sócrates. A grande assunção de Sócrates e, consequentemente, de todo o racionalismo, é a de que a razão pode orientar e corrigir a vida humana. Esta ideia estará na base, segundo Nietzsche, da crença da possibilidade de um iluminismo universal e da possibilidade de alcançar a felicidade neste mundo, dentro duma sociedade universal, em utilitarismo, liberalismo, democracia, pacifismo e socialismo. Mas para Nietzsche, porém, a razão, que se indigna contra o sacrifício do intelecto, assenta ela mesma no sacrifício do intelecto: ela decorre da decadência, de uma vontade de poder que tem como fim a vingança do homem teórico sobre o homem não-teórico. Neste sentido, Nietzsche diz-nos que não existe philo-sophia ou eros filosófico, mas apenas vontade de poder. A primeira presumia ser como a lua, i.e., procurava por algo que lhe era exterior, era contemplativa e enviava apenas uma luz que lhe era emprestada. A segunda é como o sol: gera a sua própria luz e, por conseguinte, é criativa. É criativa porque é animada pela consciente vontade de poder. Neste sentido, não existe puro acto de conhecer, pois, todo o conhecer é já uma forma de criar, de poiesis.
domingo, 8 de janeiro de 2012
Da Idade Média "fanática e repressora" dos anticlericais primários à Idade Média sensata e retardadora dos historiadores sérios
Albert Bayet in "História do Livre-Pensamento", p. 76.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Notas soltas sobre a Coreia do Norte
1) O regime norte-coreano era até aos anos 70 o maior caso de sucesso económico e social entre os países não-alinhados (que tendiam para o socialismo, como todos sabemos). Era estudado com entusiasmo até pelos ocidentais. Foi no seio deste orgulhoso regime que se formou o jovem Kim Jong-Il.
2) A história de Kim Jong-Il não é a de um menino mimado que em 1980 foi designado sucessor por um pai babado. Kim Jong-Il é só um de muitos filhos, a esmagadora maioria nunca reconhecidos, de Kim Il-Sung (entre muitos outros familiares e membros poderosos do círculo íntimo do “Grande Líder” aspirantes ao poder). Kim Jong-Il emergiu na política coreana durante os anos 60, deu provas de enorme talento na área da propaganda (muito valorizada num regime deste tipo) e passou os anos 70 a tornar verosímil uma sucessão dinástica inesperada, muito mal vista no seio do regime e desprezada entre o movimento comunista mundial em geral. Esse percurso sinuoso durante os anos 70 revelou um político “maquiavélico” com uma astúcia fora do comum. A sucessão dinástica não resultou de nenhum plano do pai, resultou de uma dinâmica contingente em que Kim Jong-Il foi o principal actor. Jong-Il conquistou a pulso a sucessão, não a recebeu de mão beijada.
3) Kim Jong-Il não se limitou a herdar a aura mítica e o culto de personalidade do pai. Na verdade, uma parte de leão dessa aura mítica e desse culto de personalidade (bem como os festivais de massas do folclore totalitário que são o ex libris do país) foi forjada pelo próprio Kim Jong-Il, no seu percurso de ascensão como propagandista e político durante os anos 60 e 70. A sua reivindicação de legitimidade na ascensão ao poder alicerçou-se na adulação sem limites do “Grande Líder”, jogando assim com o seu trunfo de pertença a uma “linhagem pura de revolucionários” (a sua mãe, que morreu em 1949, tinha acompanhado Kim Il-Sung durante a luta contra a ocupação japonesa da Coreia, ao contrário das futuras mulheres do "Grande Líder", mães do exército de meios-irmãos de Kim Jong-Il). Não nos esqueçamos que por essa época a revolução norte-coreana era um caso de sucesso internacionalmente reconhecido.
4) Nem toda a gente no mundo tem a mesma visão liberal-democrática das coisas. Isso não faz dessas pessoas automaticamente “diabólicas”, embora para quem a tenha seja difícil conceber em termos não moralistas as razões das outras opções. Esse tipo de perspectiva pode revelar vitalidade de convicções, mas não ajuda a explicar absolutamente nada sobre nenhum fenómeno político. É preciso compreender a perspectiva norte-coreana sobre os acontecimentos da década de 80, que se concentrou não no aumento do bem-estar material ou na liberdade de expressão mas na renúncia à soberania e na substituição de incentivos idealistas por incentivos materialistas como base da organização social. Há um fosso enorme entre culturas políticas que valorizam a autonomia individual para perseguir a felicidade individual e culturas políticas que valorizam a acção colectiva para perseguir fins históricos grandiosos. Seja como for, o resultado das fórmulas reformistas na URSS e no bloco de Leste durante os anos 80 foi o colapso dos regimes comunistas e a queda em desgraça das suas elites, bem como a agonia prolongada das populações e a explosão da criminalidade organizada (ao mais alto nível) durante a transição (sobretudo na Rússia). O resultado das fórmulas reformistas na China foi a invasão de capital e influência estrangeiros e a perda de relevância do Líder, do seu círculo próximo e da ideologia. Não são propriamente modelos apetitosos para a elite política norte-coreana, numa perspectiva “realista” das coisas. Para dar uma ideia mais “normativa” desta perspectiva, a imagem da Coreia do Sul entre as elites do Norte é a de um país que trocou a sua soberania, o bem supremo para os coreanos do norte, pelas delícias do bem-estar económico (a Coreia do Norte parecia capaz de combinar as duas até aos anos 70). O cimento da experiência política norte-coreana (ao contrário da Europa de Leste, em que basicamente a força das armas soviéticas permitiu a uma minoria de activistas, em qualquer outro contexto despicienda, impor um regime comunista contra a vontade das populações) sempre foi a mobilização popular genuína em torno da resistência à colonização, tanto pelo Japão Imperial como pela URSS, a China ou os Estados Unidos (o “colonizador do Sul”). É evidente que este tipo de mentalidade é reversível, como prova o exemplo da Coreia do Sul. Mas não do dia para a noite – sobretudo não depois de quase 70 anos de doutrinação juche (“Coreia acima de tudo” e “autarcia total”).
5) Durante os anos 80, a economia política de Kim Il-Sung começou a desabar em cima de Kim Jong-Il, que assumiu a governação doméstica do país com a legitimidade de “herdeiro do génio do Grande Líder” (então vivo e com o poder máximo, não esqueçamos), e portanto com pouca margem de manobra para grandes experiências reformistas, mais ainda em face dos resultados políticos desastrosos (da perspectiva dos seus líderes) das reformas comunistas por todo o mundo. A economia de comando central, a mobilização do entusiasmo e os “grandes saltos em frente” tecnológicos eram as fórmulas hegemónicas que tinham até aos anos 70 sido o orgulho e o motor dos sucessos da Coreia do Norte (e que na verdade eram hipotecas sobre o seu futuro). Durante os anos 80 já eram visíveis sinais dos resultados de longo prazo desse tipo de política económica, mas eram sinais ténues e facilmente ignoráveis.
6) Em 1991 a queda da URSS acabou com os inputs à produção não internamente substituíveis (energia, fertilizantes, peças de maquinaria…) e com os “mercados amigos”. O resultado foi o colapso da indústria e o regresso da agricultura à idade da pedra. A recessão foi catastrófica. Em 1994 faleceu Kim Il-Sung (perante o choque genuíno da população). A partir de 1995, cheias inéditas (potenciadas pela desflorestação para obter lenha para fazer face ao fim do abastecimento energético soviético) seguidas de secas prolongadas destruíram a produção agrícola, devastaram o sistema distributivo do Estado e trouxeram o espectro da fome generalizada. Foi Kim Jong-Il que teve que gerir este cenário muito delicado de provável implosão do regime. A Coreia do Norte tem desde então procurado um difícil equilíbrio político que permita evitar tanto o colapso do regime como a fome, num misto de preservação do modelo de controlo social orwelliano que é o cimento do regime e aberturas pontuais para resolver problemas de curto prazo. Tem procurado uma gestão mais racional dos mecanismos repressivos, tem tolerado hortas privadas e expedições autónomas à China e tem fechado os olhos à emergência de mercados livres para bens de primeira necessidade.
7) Ora, não são só os “diabólicos líderes” da Coreia do Norte que estão interessados em preservar a estabilidade do regime - e da reforma do modelo totalitário à entrada numa espiral de dissolução pode ir um pequeno e muito arriscado passo. O “jogo das conversações a 6” é isso mesmo: um jogo. Nenhum dos actores na região (nem sequer os Estados Unidos) quer o fim do regime norte-coreano actual. Ninguém quer enfrentar as decisões dificílimas e os resultados imprevisíveis – sobretudo militares, económicos e sociais – da implosão do regime. Não esqueçamos que a Coreia do Norte tem um dos maiores exércitos do mundo e capacidade para produzir armas nucleares. Não nos esqueçamos que fenómenos trágicos (criminalidade transnacional, proliferação de material nuclear, etc.) foram alimentados pela implosão descontrolada da URSS. Não nos esqueçamos dos custos económicos astronómicos que representam a absorção de uma economia falida por economias em desaceleração e cheias de problemas sociais próprios (como a chinesa e a sul-coreana). A fórmula é simples: a Coreia do Norte segue o guião que ela própria criou para as relações internacionais - provocações deliberadas, isolamento belicista e negociações para obter concessões para aguentar o regime; todos os outros poderes envolvidos lamentam o “bizarro comportamento” dos norte-coreanos (para “comentador político ocidental” ver); ao mesmo tempo todos os poderes envolvidos incluem esse “bizarro comportamento” (que é na verdade racional e previsível) nos seus cálculos estratégicos.
8) A sucessão dinástica, vista assim, não é uma “bizarria” norte-coreana, um atentado contra Marx. Lenine também “subverteu” Marx para poder levar a cabo uma revolução russa, Mao “subverteu” Lenine para tentar evitar cair na petrificação burocrática do pós-Estalinismo, Pol Pot “subverteu” Mao para evitar ter que lutar no futuro contra a ameaça de retrocesso ao capitalismo e assim por diante. Não foram diabólicos planos maquiavélicos para preservar o poder que estiveram por trás destas reformulações ideológicas, mas na verdade entusiásticos voluntarismos revolucionários que se revelaram catástrofes humanitárias. Marx escreveu sobre a evolução geral da História e não sobre as estratégias a adoptar pelos agentes políticos perante novas e idiossincráticas circunstâncias concretas. Pensar que um líder político confrontado com as circunstâncias do século XX ou do século XXI alguma vez seguiria uma cartilha altamente abstracta escrita no século XIX é simplesmente ridículo e infantil. Quanto mais não seja porque o Marxismo não é nem nunca foi concebido para ser uma “cartilha ideológica” ou um “manual de acçao” – é um sistema filosófico com muitos diagnósticos, algumas previsões e poucas prescrições. Assim, a sucessão dinástica é um mecanismo de transmissão de poder em ambiente totalitário que resolve muitos dos problemas – para a elite política desse regime e para o mundo exterior que conta com a sua estabilidade – que noutros casos levaram à derrocada de regimes aparentemente sólidos. Não foi Kim Il-Sung que inventou a instituição da sucessão dinástica totalitária. O "mérito" ou o "ónus" deste mecanismo pertencem a Kim Jong-Il. Foi ele que agora o pôs deliberadamente em prática com o seu filho – a passo de galope depois de ter sofrido um acidente vascular cerebral (2008) que então deixou meio mundo em alerta máximo, dada a imprevisibilidade total em relação à sucessão e portanto à estabilidade do regime.
9) O resultado da experiência política totalitária prolongada na Coreia do Norte é o desastre humanitário, económico e social do costume. Mas a responsabilidade está muito, muito longe de ser exclusiva da “perversa” dinastia Kim, como na versão de desenhos animados dos “comentadores políticos”, que lamentam a “ausência de informação” (só não há informação para quem não se dá ao trabalho de a procurar) e se queixam da “bizarria” (se é bizarro é porque é inexplicável, sugere-se) dos líderes norte-coreanos.
